Apologética Católica

Somente a Bíblia parte II (Protestantes


IV - Sentidos das palavras e da Escritura

Erram também os protestantes ao supor que possam, sozinhos, compreender os vários sentidos da Sagrada Escritura. Antes de qualquer análise desses sentidos, porém, haver-se-ia que levantar um problema preliminar: quais os livros que fazem parte da Bíblia? Os judeus tinham muitos outros livros religiosos que, entretanto, não foram considerados inspirados por Deus, e, por isso, nunca fizeram parte da lista dos livros da Sagrada Escritura. Eram os chamados livros apócrifos. Também depois da ressureição de Cristo e de sua Ascenção ao Céu surgiram muitos livros apócrifos que não foram tidos como inspirados e nem foram incluídos no rol dos livros do Novo Testamento.

Quem julgou quais livros fazem parte dos textos inspirados por Deus? Essa é uma questão fundamental. De sua solução dependerá a fé. Entre os antigos judeus, foi a tradição que estabeleceu os critérios de inspiração. No Novo Testamento, foram a Tradição e a Igreja que determinaram quais os livros inspirados por Deus e que devem fazer parte do cânon das Escrituras.

Conhecidos quais os livros componentes da Bíblia, há que tratar ainda de outros problemas de interpretação.

Tipos de palavras

Não pretendemos fazer, neste simples artigo, uma exposição exaustiva de exegese. Visamos apenas indicar certos problemas existentes na leitura da Bíblia. Por isso, nos ateremos apenas a aludir a alguns pontos mais importantes da exegese bíblica.

As palavras humanas são de três tipos diferentes.

Algumas palavras têm um só sentido: são as palavras unívocas. Ex. copo, giz, vento, água.

Um segundo tipo de palavras é o daquelas que têm vários sentidos diferentes, sem qualquer relação entre si: são as palavras equívocas. Ex. manga, que tanto pode significar uma fruta quanto uma parte do vestuário. Vela é um segundo exemplo de palavra equívoca, porque pode significar um objeto para ser aceso e iluminar, ou uma tela para captar o vento e mover um barco. E não há relação alguma entre vela de pavio e vela de navio.

O terceiro tipo de palavras é o daquelas que têm vários sentidos com alguma relação entre si. Essas são as chamadas palavras análogas. Por exemplo, a palavra pé pode ser usada para designar uma parte do corpo humano, uma parte de um animal, ou ainda o pé de uma cadeira. É claro que essas três coisas designadas pela palavra pé têm algo em comum que as torna semelhantes. Todas sustentam algo. Mas é claro também que o pé de uma cadeira só é pé por analogia ou semelhança com o pé humano: ambos dão sustentação, ao corpo do homem e à cadeira. Pé é uma palavra análoga.

Ora, ao falarmos ou escrevermos, usamos os três tipos de palavras, o que pode provocar enganos ou erros de interpretação do que queremos dizer. Com as Sagradas Escrituras ocorre o mesmo: Deus usou os três tipos de palavras, o que pode provocar erros de interpretação.

Tome-se, por exemplo, a palavra irmão. Se a palavra irmão for tida como unívoca – significando filhos de um mesmo casal – então, quando se lê que os irmãos de Jesus foram a seu encontro, se concluirá que Nossa Senhora teve vários filhos, e que, portanto, não permaneceu virgem. E essa é a interpretação seguida pelos pastores protestantes.

Ora, esses mesmo pastores, ao falarem a seus correligionários na praça, se referem a eles como irmãos. Considerando, eles, que a palavra irmão é unívoca, estarão dizendo que todos os que estão na praça são seus irmãos carnais, e estarão afirmando que houve com os pais deles um número enorme de adultérios. O pastor estaria ofendendo a todos, chamando-os de filhos adulterinos. Evidentemente, isso é um absurdo.

Quando o pastor chama seus correligionários de irmãos, ele está usando o termo em sentido análogo: ele quer dizer que todos os correligionários são irmãos numa mesma crença, no caso, crença herética.

Portanto, o termo irmão é análogo, e não unívoco. Irmãos de Jesus, então, não significa irmãos carnais. Na linguagem bíblica, irmão quer dizer apenas parente. Por isso, Abraão chamava Lot de irmão (Gn. 8, 8) quando este era, na verdade, seu sobrinho (Gn. 12, 5).

O fato de haver nas Sagradas Escrituras termos unívocos, análogos e equívocos pode provocar interpretações falsas, que redundam até em heresia.

De que nos adiantaria termos a Bíblia se, não tendo meio de distinguir o sentido das palavras - que variam conforme o seu tipo - não a interpretaríamos segundo o sentido que Deus quis usar?

Modos de empregar as palavras

Há ainda outra dificuldade proveniente dos vários sentidos que pode ter uma palavra, conforme é empregada de modo relativo ou absoluto.

Veja-se outro exemplo: a palavra odiar.

Essa palavra normalmente significa querer o mal, isto é, a perda de um bem. Deus condena o ódio, e Cristo ordenou que amássemos o nosso próximo como a nós mesmos, por amor de Deus. Entretanto, Cristo disse: "Aquele que não odiar seu pai e sua mãe por minha causa, não pode ser meu discípulo" (Luc. 15, 36)

Isso parece, à primeira vista, ser o contrário do que Deus ordenou no quarto mandamento do Decálogo: "Honra teu pai e tua mãe para que tenhas uma vida dilatada sobre a terra que o Senhor teu Deus te dará" (Ex. 20,12).

Evidentemente, Cristo não pode ter ordenado que se odeie aos pais, nem pode ter posto o ódio aos pais como condição para ser seu discípulo. Cristo empregou o verbo odiar em sentido relativo, e não em sentido absoluto. Ele quis dizer que, havendo oposição entre o amor aos pais e o amor a Deus, deve-se preferir o serviço de Deus e até abandonar os pais, se for necessário, para servir a Deus, praticando com relação aos pais um ato de ódio relativo. Entre o amor absoluto, que devemos somente a Deus, e o amor relativo aos pais, devemos, caso seja necessária uma opção, preferir o amor a Deus.

Figuras de retórica

A Sagrada Escritura, como qualquer outro tipo de texto, emprega, as figuras de estilo próprias da linguagem humana: usa de metáforas, comparações, hipérboles, sinédoques, etc.

Freqüentemente, é impossível, portanto, tomar as palavras em seu sentido próprio. Deve-se entendê-las figuradamente, de acordo com o tipo de figura de retórica utilizada.

Assim, quando Cristo chama Herodes de "essa raposa" (Luc. 8, 32) seria absurdo entender o termo de modo literal e não metafórico. Quando Ele chama os fariseus de "filhos do demônio" (Jo. 8, 44), embora o demônio não possa de fato ter filhos de modo próprio - pois ele não tem corpo nem capacidade de gerar filhos - ele pode ter "filhos" de modo analógico. Portanto, a expressão "filhos do demônio" aplicada aos fariseus não é propriamente uma metáfora, e sim uma outra forma de analogia.

Gêneros literários

A Sagrada Escritura contém livros de vários gêneros literários diferentes. Lá, existem livros históricos, proféticos, hinos, orações, textos jurídicos ou legais, livros sapienciais. Conforme o gênero literário empregado, há um modo diverso de entender as palavras. O que é contado num livro histórico são fatos realmente acontecidos. As imagens empregadas nas profecias são figuras simbólicas de fatos futuros não acontecidos. Assim, os animais da profecia de Daniel são símbolos de reinos que haveriam de vir, e a própria Bíblia os explica assim (Dan. 7, 17).

Sentido Histórico

É importante compreender que as palavras podem ter variações de significado conforme a época em que foram usadas. Hoje, a palavra "formidável" significa coisa de grande valor, excelente, como quando se diz: "Esse livro é formidável". Entretanto, a palavra formidável, originalmente, queria dizer "coisa que dá medo". Esse significado desapareceu em nossos dias. Por essa razão, deve-se conhecer o significado e o contexto histórico de um texto.

Cada autor emprega as palavras no sentido em que eram usadas em sua época. É necessário, pois, conhecer o contexto histórico em que viveu o autor de um livro sagrado.

Parábolas

Nosso Senhor Jesus Cristo, para ensinar ao povo, freqüentemente empregava parábolas, que são pequenas histórias fictícias, contendo ensinamentos doutrinários, morais e místicos.

O Evangelho contém inúmeras parábolas, a ponto de São Marcos dizer: "Não lhes falava sem parábolas, porém tudo explicava em particular a seus discípulos" (Mc. 4, 34).

Por que falar em parábolas? Por que, muitas vezes, Nosso Senhor se exprimia parabolicamente e não falava diretamente?

Os próprios Apóstolos, certa vez, fizeram essa pergunta a Jesus, que lhes respondeu, dizendo: "Porque a vós é concedido conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é concedido. Porque ao que tem lhe será dado, e terá em abundância; mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. Por isso lhes falo em parábolas, porque vendo não vêem, e ouvindo não ouvem, nem entendem" (Mt. 8, 11 –13).

A parábola contém um ensinamento literal facilmente acessível aos homens simples, mas, sem qualquer violação do sentido literal primeiro, pode conter outros ensinamentos doutrinários, morais, ou místicos.

Sentidos das Sagradas Escrituras

Isso nos conduz à questão dos sentidos das Sagradas Escrituras.

Normalmente distinguem-se quatro sentidos fundamentais nas Sagradas Escrituras:

1 - O Sentido Literal;
2 - O Sentido Doutrinário;
3 - O Sentido Moral;
4 - O Sentido Místico.

O sentido literal é o fundamental, e nele, sem violação ou sem forçar o texto, podem ser encontrados os outros três sentidos fundamentais.

Daí, os famosos versos:

"Littera gessa docet; quid credas, allegoria;
Moralis, quid agas; quo tendas, anagogia"

(A letra ensina os fatos; o que deves crer, a alegoria;

O que deves fazer, o moral; a que deves tender, a anagogia)

Sentido literal é aquele que é expresso de modo verdadeiro, real, atual, imediato e desejado pelo autor do texto sagrado. É o sentido que decorre diretamente do texto, sem que seja feita uma dilatação, ou extensão, do sentido das palavras além do normal; é o sentido atual, e não uma dedução silogística; imediato, e não por analogia ou simbolicamente.

O sentido literal, ele mesmo, pode ter vários sentidos diversos. Por exemplo, na profecia de Caifás. Ao dizer ele: "Convém que morra um homem pelo povo" (Jo 11, 50). A própria seqüência do Evangelho explica que Caifás, ao dizer isso, profetizou, dizendo de fato outra coisa (Jo. 11, 51).

Além disso, pode-se inferir, legitimamente, um sentido derivado do literal: é o Sentido Derivativo, ou conseqüente, que é aquele que legitimamente decorre do sentido genuíno literal.

É o que faz São Paulo ao citar a frase de Jeremias "Não se glorie o sábio no seu saber, nem o forte na sua força, nem se glorie o rico em suas riquezas" (Jer. 9, 23). São Paulo diz: "O que se gloria, glorie-se no Senhor" (I Cor. 1, 31).

Do sentido literal pode-se ainda fazer uma acomodação, quer extensiva, quer alusiva. Pela acomodação, as palavras da Sagrada Escritura são aplicadas analogicamente a um outro sujeito ou a coisa diferente daquela a que se aplicava originalmente um texto escriturístico anterior, ou ainda fazendo-se alusão a palavras usadas na Escritura em outro contexto.

Acomodação extensiva é aquela que foi feita usando o texto do Eclesiástico: "Noé foi encontrado perfeito e justo, e no tempo da ira tornou-se a reconciliação dos homens" (Jer 44, 17), aplicando-se o que foi dito de Noé para outros personagens santos.

Acomodação alusiva foi o que fez Nosso Senhor Jesus Cristo ao usar as palavras do Salmo 6, 9: "Apartai-vos de mim todos os que praticais a iniqüidade, porque o Senhor ouviu a voz de meu pranto", no Sermão da Montanha: "Então eu lhes direi bem alto: "Nunca vos conheci; apartai-vos de Mim, vós que praticais a iniqüidade" (Jo. VII, 23).

O sentido literal inclui o sentido próprio e o sentido figurativo.

Quando a Bíblia fala do braço de Deus, ela não quer dizer que Deus, de fato, tenha braço. É um modo figurado de dizer que Deus tem poder. Esse sentido figurativo sempre tem base no sentido literal, mas não deve ser entendido de modo próprio.

No sentido literal está incluído o sentido típico.

Chama-se típico esse sentido porque usa um "tipo" (pessoa, animal, coisa ou fato acontecido) como imagem ou figura de outro, que seria o antitipo.

O Tipo conduz ao sentido espiritual, isso é, ao Antitipo.

Exemplos de Tipo e de Antitipo são Isaac e Cristo, o sacrifício de Abraão e o sacrifício do Calvário, o sono de Adão e morte de Cristo, e tantos outros mais.

O sentido típico difere do sentido acomodatício, porque é realmente expresso. Difere da conseqüência, porque é atualmente expresso, e não deduzido. Difere do literal, porque não é expresso imediatamente.

O Sentido Típico é chamado Alegórico, ou doutrinário, quando exprime uma verdade em que se deve crer.

Chama-se Sentido Moral, quando exprime o que se deve fazer.

Finalmente, chama-se Sentido Místico, quando exprime aquilo que devemos amar, e a que devemos tender.

Assim, Jerusalém, a cidade santa dos judeus, alegoricamente, significa a Igreja Católica; moralmente, significa o céu, o bem esperado, que só se alcança pela prática dos mandamentos; e, misticamente, representa a alma.

V - Conclusão

Levando em conta tudo isso, compreende-se que é extremamente difícil interpretar corretamente a Bíblia, e que imensa confusão produz o livre exame.

Por isso, São Pedro previne em sua segunda Epístola: "Nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular" (2 Pe. 1, 20).

Daí a necessidade de Deus ter dado a alguém "as chaves" de sua interpretação. Foi Pedro quem recebeu essas chaves, quando o próprio Cristo lhe disse: "Bem aventurado és tu, Simão Bar Jonas, porque não foi a carne, ou o sangue que te inspiraram, mas meu Pai que está nos céus. E eu te digo que tu és Pedro, e sobre essa pedra eu edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos céus; e tudo o que ligares sobre a terra será ligado também nos céus; e tudo o que desligares sobre a terra será desligado também nos céus" (Mt. 16, 17-20)

Portanto, somente o Papa pode dar a interpretação certíssima e indubitável das Sagradas Escrituras, devendo os fiéis ouví - la e observá-la.

Compreende-se agora claramente o que disseram os Provérbios:

"Assim como o espinheiro está na mão do bêbado, assim está a parábola no boca dos ignorantes" (Prov. 26,9)

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