Apologética Católica

Martinho Lutero: Herói ou vilão!

Por Jaime Francisco de Moura              


        Desde a infância, Martinho Lutero aprendeu a crer na existência do demônio, e praticamente via-o materializado por toda parte. Sentia-se perseguido e vigiado por ele, como se fosse uma entidade quase física.

          Homem de princípios inabaláveis, sacerdote rígido, via a Igreja Católica como fiel servidora do diabo. Combateu-a

             É possível que de tanto ouvir falar em bruxas, sortilégios e exorcismos, de tanto ler a Bíblia as passagens referentes a Satã e ao Inferno, Martinho Lutero, por tal motivo, tenha passado a ver, a sentir, a constante presença do demônio.

          Sobre o reformador, palpitava em sua cabeça, uma certa dose da insânia de Dom Quixote. O impressionável Lutero não conseguiu libertar-se da pegajosa companhia do tentador.

             O herói de Cervantes, de tanto ler os livros da cavalaria, inflamou o seu cérebro até a insensatez, tomando trinta ou quarenta moinhos de ventos por seres descomunais, dois frades da Ordem de São Bento por raptadores de uma princesa, mansos rebanhos de ovelhas e carneiros por esquadrões de um aguerrido exército.

Às vezes se tornam perigosos, ou pertubadores, aqueles que limitam o horizonte de suas leituras. Do Alcorão saiu o “crê ou morre” dos maometanos; de O capital, de Karl Marx, irrompeu a revolução russa de 1917; do Mein Kampf, de Adolf Hitler, as barbaridades do nazismo; da Bíblia, o livro da palavra de Deus, os demônios que expulsaram o sossego da alma de Martinho Lutero...

Lutero fala ao eleitor Frederico “...chego a Wittenberg para eliminar as desordens que o diabo maquinou.”

             “Estou firmemente persuadido de que os diabos estão instalados nas nuvens. Começa a chover? São eles que semeiam a chuva”.

  O reformador também garantiu:

              “É pela obsessão do diabo que os homens são atacados de frenesi e de loucura. Os médicos, que procuram combater esses males com os remédios da ciência, não avaliam o poder do maligno. Estou convencido de que é por arte do demônio que sofrem os surdos, mudos, e os cegos”.

               “Se o diabo viesse com o seu aspecto real, aí seria tudo fácil...porém ele  um embusteiro, que se enfeita, aparentando ser mais belo que os anjos, sim ,do que o próprio Jesus...portanto, cala-se, doce boca de mel, tu vens por aí vestido com pele de ovelha, mas na realidade és o maléfico diabo.”

  Sempre o capeta, sempre....É inabalável, nesse sentido, a crença do reformador, e ele chega a ver demônios nos próprios animais:

“Os diabos vencidos e humildemente se transformam em duendes e aparições fantásticas, pois existem diabos degenerados e eu julgo que os macacos não são outra coisa”.

                 “Eu acredito que o diabo mora nos papagaios e nos periquitos, nos macacos e nas macacas, porque eles podem imitar muito bem  os seres humanos”.

No seu  opúsculo contra o duque Henrique de Brunswick o diabo é citado cento e quarenta e seis vezes. Observem, que num opúsculo, o texto é pequeno...

             O teólogo rebelde tem idéias firmes:

...Eis um trecho de uma carta do Lutero, enviada a Johann Ruhel, conselheiro do conde de Mansfeld:

“Os camponeses são ladrões e assassinos, é o diabo que tramou isto contra mim. Ainda bem! Se eles continuam [os camponeses], desposarei a minha Kate [Catarina]”.

        Segundo o reformador, “nenhum diabo ficou no inferno, passaram-se todos para os corpos dos camponeses”.

   Lutero deu aos príncipes esta lição de selvageria:

              “Vamos, caros senhores! Batei, trespassai, degolai como podeis. Aí encontrareis a morte, não conseguireis sonhar morte mais celeste, pois sucumbireis em obediência a Deus, e protegendo os vossos semelhantes contra as hordas de Satã”. “O burro quer pancadas e o povo quer ser governado pela força. Deus sabia muito bem, pois não deu aos governantes um rabo de raposa, mas sim uma espada!.”

Com o fim da guerra dos camponeses, Lutero contraiu matrimônio – e aqui vai a sua própria confissão – para “fazer a vontade do seu pai, irritar o Papa e afligir o diabo”. Comentando o fato, Erasmo gracejou: - A Reforma teve início com uma tragédia e agora termina com uma comédia de casamento.

  Segundo Lutero, na hora do seu casamento, os Anjos sorriam e os demônios choravam...Não teria sido o contrário?

           A idéia fixa pelo diabo não larga Lutero, nem mesmo nas ocasiões em que ele aborda os problemas do ensino leigo. Nesse ano de 1530, por exemplo, o reformador afirmou num sermão:

           “Eu sustento que as autoridades civis têm a obrigação de forçar o povo a enviar os seus filhos à escola, exatamente como estão prometendo...Se o governo pode obrigar tais cidadãos, quando prestam o serviço militar, a agüentar a espada e o rifle, a cavar trincheiras e a cumprir os outros deveres militares em tempo de guerra, tem muitíssimo mais direito de obrigar o povo a mandar os seus filhos à escola, porque neste caso nós estamos lutando contra o demônio...”

            Uma das maiores astúcias do “malvado Satanás”, conforme disse Lutero, era enganar os homens do povo, a fim de impedi-los de pôr os filhos nos estabelecimentos de ensino. O diabo iludia esses pais, com o objetivo de manter a plebe na ignorância.

   Enaltece as escolas para a infância, mas em suas conversas, Lutero amaldiçoa as universidades, nas quais vê “templos de Moloch”, “espeluncas de assassinos”, “verdadeiras cidades do diabo na terra”. Leva o seu radicalismo ao extremo:

               “As escolas superiores merecem ser destruídas até aos alicerces. Desde que o mundo é mundo, não houve instituição mais diabólica, mais infernal”.

  Professor universitário, Lutero não poupa nenhuma universidade.

  Parece que o reformador, no ano de 1532, falou muito sobre o diabo. Analisem, por exemplo, uma informação absurda, emitida pela sua boca no mês de outubro:

            - O diabo dizia ao Papa São Pedro: “Tu te chamas pedra e, oh maravilha, tens cabelos crespos e um pensamento crespo, eis o que é pior!”.

             Lutero estava com juízo perfeito, quando soltou esta loucura? Quais são as fonte de tais informações? Elas merecem crédito? Sim, pois tudo isto foi extraído dos Tischreden, das conversas do reformador, apanhadas pelos seus amigos. Esses Tischreden também são chamados de Table-talk, Propôs de table, Ditos de mesa, palestras à mesa, Colloquia mensalia.

            Uma primeira compilação dessas frases de Lutero, colhida no decorrer das conversas, foi lançada em Eisleben, no ano de 1566, por Johann Aurifaber, que esteve ao lado do reformador nos últimos tempos de sua vida.

   Com o fluir dos anos, os Tischreden se enriqueceram. Na edição de Forstesmann e Bindseil, distribuída entre 1844, o texto já se compõe de quatro volumes. Constitui uma seção à parte, formada de seis grandes volumes in-folio, na edição crítica dos escritos de Lutero, publicados em Weimar, entre 1912 e 1921, por Ernest Kroner. Apareceu, no ano de 1930, uma exelente coletânea dos Tischreden, devido a iniciativa de Otto Clemens.

    O valor dessa obra, como elemento de asnálise da personalidade de Lutero, foi salientado numa frase incisiva, na página 810 do volume V do Larrousse du XX siècle:

             “Nenhum livro é mais próprio para fornecer uma idéia tão completa do que era Lutero na intimidade”.

    Isto explica por que Michelet, um dos maiores historiadores da França, socorrendo-se do Propos de table, escreveu as Memoires de Luther, publicadas em dois volumes no ano de 1837.

    A importância fundamental das conversações de Lutero foi assinalada por T.F.Aubier, Charles Gidel, Fréderic Lollié, Roger Pitrou, Jared Wicks, Loius-Gustave Vapereau, e inclusive por historiadores protestantes, como Vicente Themudo Lessa, Funck-Brentano e Jacques-Noel Pères. O primeiro não se esqueceu de frisar: certos momentos essenciais da vida interior de Lutero permaneceriam obscuros, se não existisse esta obra. Ela é básica, informa Charles Gidel – um autor premiado duas vezes pela Academia Francesa - ,no que tange aos segredos da existência particular do reformador, às suas “extravagâncias”, às suas “prostrações” intermitentes, às suas qualidades e defeitos. Na opinião de Roger Pitrou, professor honorário da Faculdade de Letras de Bordéus, os Tischreden são uma “curiosa mescla de azedume e de bom senso”. Jared Wicks, por seu turno, professor de teologia fundamental na Universidade Gregoriana de Roma, numa entrevista sobre Lutero, publicada no número três da Cittá di Vita, de 1983, não vacilou no seu julgamento:

                    -  Notáveis são também os Tischreden (Palestras à mesa)

   O Pastor protestante Vicente Themudo Lessa, professor de Teologia e história eclesiástica, no capítulo 48 da sua biografia de Lutero, enumera alguns registradores das palestras do Ex-monge agostiniano; Dietrich, Lauterbach, Matésio, Aurifaben, Conrado Cordato. E no seu artigo “Educar para a vida”, inserido no número doze de O Correio da Unesco, de dezembro de 1983, outro pastor protestante, o citado Jacques-Noel Peres, membro na França da Igreja Evangélica Luterana e presidente do Centro Cultural Luterano de Paris, ao evocar a formação cultural do reformador, citou os Tischreden, isto é, admitiu o valor desta obra como fonte de consulta.

   Um excelente motivo levou a enfatizar esse valor das palestras à mesa: nelas podemos encontrar a maior parte dos textos relativos à obsessão de Lutero pelo diabo. Sob tal aspecto, constituem um documentário muito rico. Daí é possível deduzir que se alguém quiser negar a referida obsessão, terá de também negar a autenticidade dos Tischreden...

            Lutero continua a ver o Diabo em toda parte: Com muita frequência no período de 1531 a 1534. O espírito das trevas sempre foi citado por Lutero. Se isto era um hábito do reformador, era também mania. E se no seu caso era mania, era também obsessão.

               Devemos ver em Lutero um neurótico obcecado pelo diabo? Aqui vai uma frase do doutor W. Van Lun, eminente psicoterapeuta e professor de teologia moral na Universidade de Brighton:

                     “O neurótico que é ao mesmo tempo religioso, não é tão religioso como parece ser”.

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